E o som do mar era tudo que se podia ouvir...
Sem Nome sentia-se estranha
quando retomou a consciência de si, não havia mais luzes ao redor, mas a
intensa luminosidade fez com que permanecesse com os olhos fechados por mais um
tempo. Quando após um tempo sentiu-se melhor, abriu seus olhos e o que viu a
aterrorizou. De seu lado esquerdo estava o mar, lindo e azul, com a brisa
salgada soprando, embora ela não sentisse a brisa. Ao seu lado direito estava
seu corpo estendido na areia, como se estivesse morta ou dormindo. Diante dela
estava o que ela entendeu ser uma cápsula, um tipo estranho de balão colorido
onde todos os seus pensamentos passavam, imagens, vozes, musicas, sons, etc. E
atrás dela estava um réplica de seu corpo, translúcido, levemente diferente e
opaco, chorando.
Grande terror assaltou Sem Nome
que chorou, embora não entendia realmente se aquilo era um choro, sentia-se
triste, mas sua tristeza se contorcia no corpo atrás dela, que por algum motivo
ela sentia certa ligação com aquilo que era ela, mas “ela” numa forma que ela
nunca concebeu ser ela antes. O que deveria fazer? O lugar parecia inóspito,
não viu nada e nem ninguém, apenas a areia branca, suas “coisas” e ela que não
sabia o que ela poderia ser.
- Isso deve ser um sonho! Eu
estou sonhando é isso! – disse para si mesma. Mas ainda que soubesse o que era
a lucidez nos sonhos, aquilo era completamente diferente de qualquer sonho que
tivera antes. Poderia estar morta e então tudo aquilo faria sentido. Mas não se
lembrou de morte alguma, na verdade sabia nomear coisas e, no entanto, não
tinha nenhuma lembrança do que poderia ter sido seu passado. Desesperadamente
começou a gritar. Chamou tudo o que vinha em sua mente, mãe, pai, alguém, deus,
diabo, mas nada a respondeu. Desesperou-se por um longo tempo, sem ouvir nada,
sem obter qualquer resposta do que estava acontecendo, sem entender
absolutamente nada daquele evento. Mas um impulso a fez parar, parar para
contemplar. E apenas o mar foi novamente ouvido.
Foi então que além do ruído
branco do mar, ela também passou a ouvir uma voz cantando algo. A voz era
cristalina e ela não sabia dizer exatamente de onde vinha, pois parecia que
estava vindo de todos os lados. E a canção era tão bela que parecia que uma
orquestra parecia fluir junto com a melodia da voz. Viu então, seus dois corpos
se levantando e olhando para alguma direção, bem como sua cápsula-balão
esquisito passou a flutuar e tremer como se estivesse vibrando. Olhou para onde
seus corpos apontavam e vinha em sua direção um homem, vestia roupas azuis e
brancas, calças leves e camisa semiaberta mostrando o peito. Ao vê-la o homem
parou de cantar para começar a gargalhar e quando bem próximo dela disse num
tom irônico:
- Acho que está despedaçada! –
então estourou numa outra longa e sonora gargalhada.
- Bem, não sei exatamente o que
está acontecendo comigo, mas de toda forma eu aceito essa condição. – disse ela
um pouco tímida. – Gostaria apenas de saber – continuou: - onde é que eu estou.
- Bem esse planeta se chama Duminavo.
Mas você está em Nesdari e isso explica sua aceitação do seu estado... humm,
bem, vamos dizer que despedaçado. Porém, vejamos pelo lado bom, pois não
deslocou a sua cabeça junto com sua consciência. – estourou numa gargalhada
novamente dobrando seu corpo sobre sua barriga.
Sem Nome permaneceu em silêncio enquanto
olhava para o homem que gargalhava em sua frente. Quando se recompôs, ele olhou
para ela e continuou dizendo:
- Bem, talvez você precise de um
pouco mais de explicação. Nesdari é um lugar, uma terra, vamos dizer assim,
onde o azul é predominante, onde tudo é o que você descreve, onde tudo ainda
não é exatamente, mas passa a ser na medida em que você entra em sintonia com
esse lugar. Entrar em sintonia com esse lugar traz esse estado de serenidade e
apenas nesse estado é que Nesdari se torna algo para você. Não se alcança serenidade
em Nesdari, porque Nesdari em si já é serenidade, mas a partir desse ponto é
onde você passa a ter o poder para criar e a concepção da coisa criada. E
estando nesse nível de concepção, então Nesdari é o ponto onde nada pode ser algo.
Eu sei que isso soa muito complicado de se entender num primeiro momento, mas
não é difícil quando você o faz. Porque entender e raciocinar não são necessários,
em Nesdari basta contemplar e então o que se é contemplado se torna a descrição
de mundo para você. Qual é o seu nome?
- Eu não tenho um e se tiver, eu
não lembro.
- Eu me chamo Ern e escolhi estar
com você em Duminavo.
- E como eu cheguei aqui? Eu
estou sonhando ou eu morri?
- Nem uma coisa e nem outra. –
ele respondeu: - Você chegou aqui porque provavelmente num ponto do não-espaço
e não-tempo nosso portal se abriu e você conseguiu adentrar nesse universo, mais
um dentro da infinidade de universos que se encontram por aí. O que na verdade
não importa, porque esse universo pode ser acessado por qualquer um que queira
se tiver a chave para abrir o nosso portal. Por que não se torna apenas uma
coisa?
- Como assim?
- Torne-se uma coisa só. Não há
necessidade de ficar com seus corpos separados, sendo que ainda mantém muitos
corpos unidos onde você pensa que você é você. Em Nesdari basta contemplar o
que se quer para que isso se torne a sua descrição de mundo. Então contemple a
unificação de si mesmo dentro do centro de vibração de Nesdari e você não
ficará assim com seus corpos espalhados e isso te trará uma sensação maior de
bem-estar.
- E por que está me ajudando?
- Como eu dizia por bem-estar. O
fato de eu pensar exclusivamente no meu bem-estar, torna-me capaz de conceder o
seu bem-estar. Assim sendo, eu estou apenas cuidando do meu bem-estar. Agora
concentre-se no seu desejo de unificação e a partir desse desejo contemple a
sua unificação e isso então será sua descrição de mundo em Nesdari.
Sem Nome desejou ardentemente ser
uma coisa só, com seus corpos, balão e aquilo que era pensava ser ela. E então
viu-se caminhando pela praia ao lado de Ern, assim como ele o fazia. Desejou
usar um vestido vermelho ao invés de suas roupas gastas, como pareciam em seu
corpo estendido. Contemplou aquela imagem por um longo tempo e algo como um
estrondoso e sonoro “sim” de sensações preencheu-a e então viu-se em pé, com
sua percepção como estava acostumada a usar, seja lá em que parte da sua vida
da qual não se lembrava, unificada, um único corpo e ser, com Ern sorrindo ao seu lado.
- Isso faz pensar, não é mesmo? –
disse Ern: - Agora podemos dizer que você é um tipo de processo e que Nesdari é
a borda dos eventos! – ele piscou para ela com um olho só e disse: - As coisas
são como são, mas aqui em Nesdari, as coisas são aquilo que você contempla.

