sexta-feira, 20 de abril de 2012

Nesdari



E o som do mar era tudo que se podia ouvir...

Sem Nome sentia-se estranha quando retomou a consciência de si, não havia mais luzes ao redor, mas a intensa luminosidade fez com que permanecesse com os olhos fechados por mais um tempo. Quando após um tempo sentiu-se melhor, abriu seus olhos e o que viu a aterrorizou. De seu lado esquerdo estava o mar, lindo e azul, com a brisa salgada soprando, embora ela não sentisse a brisa. Ao seu lado direito estava seu corpo estendido na areia, como se estivesse morta ou dormindo. Diante dela estava o que ela entendeu ser uma cápsula, um tipo estranho de balão colorido onde todos os seus pensamentos passavam, imagens, vozes, musicas, sons, etc. E atrás dela estava um réplica de seu corpo, translúcido, levemente diferente e opaco, chorando.

Grande terror assaltou Sem Nome que chorou, embora não entendia realmente se aquilo era um choro, sentia-se triste, mas sua tristeza se contorcia no corpo atrás dela, que por algum motivo ela sentia certa ligação com aquilo que era ela, mas “ela” numa forma que ela nunca concebeu ser ela antes. O que deveria fazer? O lugar parecia inóspito, não viu nada e nem ninguém, apenas a areia branca, suas “coisas” e ela que não sabia o que ela poderia ser.

- Isso deve ser um sonho! Eu estou sonhando é isso! – disse para si mesma. Mas ainda que soubesse o que era a lucidez nos sonhos, aquilo era completamente diferente de qualquer sonho que tivera antes. Poderia estar morta e então tudo aquilo faria sentido. Mas não se lembrou de morte alguma, na verdade sabia nomear coisas e, no entanto, não tinha nenhuma lembrança do que poderia ter sido seu passado. Desesperadamente começou a gritar. Chamou tudo o que vinha em sua mente, mãe, pai, alguém, deus, diabo, mas nada a respondeu. Desesperou-se por um longo tempo, sem ouvir nada, sem obter qualquer resposta do que estava acontecendo, sem entender absolutamente nada daquele evento. Mas um impulso a fez parar, parar para contemplar. E apenas o mar foi novamente ouvido.

Foi então que além do ruído branco do mar, ela também passou a ouvir uma voz cantando algo. A voz era cristalina e ela não sabia dizer exatamente de onde vinha, pois parecia que estava vindo de todos os lados. E a canção era tão bela que parecia que uma orquestra parecia fluir junto com a melodia da voz. Viu então, seus dois corpos se levantando e olhando para alguma direção, bem como sua cápsula-balão esquisito passou a flutuar e tremer como se estivesse vibrando. Olhou para onde seus corpos apontavam e vinha em sua direção um homem, vestia roupas azuis e brancas, calças leves e camisa semiaberta mostrando o peito. Ao vê-la o homem parou de cantar para começar a gargalhar e quando bem próximo dela disse num tom irônico:

- Acho que está despedaçada! – então estourou numa outra longa e sonora gargalhada.

- Bem, não sei exatamente o que está acontecendo comigo, mas de toda forma eu aceito essa condição. – disse ela um pouco tímida. – Gostaria apenas de saber – continuou: - onde é que eu estou.

- Bem esse planeta se chama Duminavo. Mas você está em Nesdari e isso explica sua aceitação do seu estado... humm, bem, vamos dizer que despedaçado. Porém, vejamos pelo lado bom, pois não deslocou a sua cabeça junto com sua consciência. – estourou numa gargalhada novamente dobrando seu corpo sobre sua barriga.

Sem Nome permaneceu em silêncio enquanto olhava para o homem que gargalhava em sua frente. Quando se recompôs, ele olhou para ela e continuou dizendo:

- Bem, talvez você precise de um pouco mais de explicação. Nesdari é um lugar, uma terra, vamos dizer assim, onde o azul é predominante, onde tudo é o que você descreve, onde tudo ainda não é exatamente, mas passa a ser na medida em que você entra em sintonia com esse lugar. Entrar em sintonia com esse lugar traz esse estado de serenidade e apenas nesse estado é que Nesdari se torna algo para você. Não se alcança serenidade em Nesdari, porque Nesdari em si já é serenidade, mas a partir desse ponto é onde você passa a ter o poder para criar e a concepção da coisa criada. E estando nesse nível de concepção, então Nesdari é o ponto onde nada pode ser algo. Eu sei que isso soa muito complicado de se entender num primeiro momento, mas não é difícil quando você o faz. Porque entender e raciocinar não são necessários, em Nesdari basta contemplar e então o que se é contemplado se torna a descrição de mundo para você. Qual é o seu nome?

- Eu não tenho um e se tiver, eu não lembro.

- Eu me chamo Ern e escolhi estar com você em Duminavo.

- E como eu cheguei aqui? Eu estou sonhando ou eu morri?

- Nem uma coisa e nem outra. – ele respondeu: - Você chegou aqui porque provavelmente num ponto do não-espaço e não-tempo nosso portal se abriu e você conseguiu adentrar nesse universo, mais um dentro da infinidade de universos que se encontram por aí. O que na verdade não importa, porque esse universo pode ser acessado por qualquer um que queira se tiver a chave para abrir o nosso portal. Por que não se torna apenas uma coisa?

- Como assim?

- Torne-se uma coisa só. Não há necessidade de ficar com seus corpos separados, sendo que ainda mantém muitos corpos unidos onde você pensa que você é você. Em Nesdari basta contemplar o que se quer para que isso se torne a sua descrição de mundo. Então contemple a unificação de si mesmo dentro do centro de vibração de Nesdari e você não ficará assim com seus corpos espalhados e isso te trará uma sensação maior de bem-estar.

- E por que está me ajudando?

- Como eu dizia por bem-estar. O fato de eu pensar exclusivamente no meu bem-estar, torna-me capaz de conceder o seu bem-estar. Assim sendo, eu estou apenas cuidando do meu bem-estar. Agora concentre-se no seu desejo de unificação e a partir desse desejo contemple a sua unificação e isso então será sua descrição de mundo em Nesdari.

Sem Nome desejou ardentemente ser uma coisa só, com seus corpos, balão e aquilo que era pensava ser ela. E então viu-se caminhando pela praia ao lado de Ern, assim como ele o fazia. Desejou usar um vestido vermelho ao invés de suas roupas gastas, como pareciam em seu corpo estendido. Contemplou aquela imagem por um longo tempo e algo como um estrondoso e sonoro “sim” de sensações preencheu-a e então viu-se em pé, com sua percepção como estava acostumada a usar, seja lá em que parte da sua vida da qual não se lembrava, unificada, um único corpo e ser, com Ern sorrindo ao seu lado.

- Isso faz pensar, não é mesmo? – disse Ern: - Agora podemos dizer que você é um tipo de processo e que Nesdari é a borda dos eventos! – ele piscou para ela com um olho só e disse: - As coisas são como são, mas aqui em Nesdari, as coisas são aquilo que você contempla.


quarta-feira, 18 de abril de 2012

A Porta


Apenas um ruído oco escorrendo pelo nada e uma enorme porta adiante. Foi assim que a ainda Sem Nome encontrou aquele lugar. Passou os dedos delicados pela porta, que por entrar em contato com o ar quente que saía de seus pulmões fez brilhar um símbolo:




A gigantesca porta de madeira antiga com o símbolo brilhante em amarelo se abriu com um rugido. Do outro lado luzes amareladas e brilhantes serpenteavam no ar do grande salão vazio. Sem Nome pode ver o mesmo símbolo transparente desenhado nas paredes brancas que se iluminavam com as luzes amarelas que dançavam no ar.

E no princípio tudo era luz...

As luzes brilhantes passaram então a envolver seu corpo, penetrando-o pelas narinas, ouvidos e boca. Então, Sem Nome era também luz e tudo se fez luz, só podia ver o amarelo rodopiando por todos os lugares e aquele lugar já não era mais um lugar, mas uma capsula de luz amarela brilhante que girava no espaço, como uma estrela prestes a explodir.

- É assim que entramos no Duminavo. – disse uma voz cristalina que ressoava por todas as partes: - Duminavo é um lugar onde apenas uma mente de luz é capaz de penetrar. Duminavo é um lugar onde apenas os olhos treinados para ver adiante são capazes de encontrar.

Então, Sem Nome sentiu sua boca seca, um leve enjoo parecia envolver o seu estomago, as luzes rodopiavam cada vez mais rápido formando um imenso turbilhão brilhante. Ela estava perdendo seus sentidos e as luzes a consumindo, cada vez mais rápido, desenfreadamente, indo além do que sua percepção podia captar. O símbolo da porta iluminou-se num branco azulado e intensamente brilhante e Sem Nome desmaiou.

Ouviu-se então apenas o barulho do mar...